Inicialmente publicado no Medium: https://medium.com/@etiennearl/mtc-om-governo-batata-quente-bd3ab118c46f

Esta semana está a ser uma loucura para a Medicina Tradicional Chinesa (MTC) em Portugal:

  • Dia 9/02 saiu a portaria n.º 45/2018 que regula o ciclo de estudos conducente ao grau de licenciado.
  • Dia 14/02 por volta das 8 horas vários mídias comunicam sobre a Ordem dos Médicos (OM) acusar “o Governo de ameaçar a saúde dos portugueses validando cientificamente práticas tradicionais chinesas através de uma licenciatura e admite avançar para “formas inéditas” de mostrar o descontentamento dos médicos.”
  • Dia 14/02 por volta das 12 horas o presidente da Associação Portuguesa de Acupuntura, Pedro Choy, rejeita as críticas da Ordem dos Médicos e aplaude a decisão do governo de regulamentar os cursos de medicina tradicional chinesa. Ao mesmo tempo o ministro da Ciência e Ensino Superior, Manuel Heitor, não compreende as críticas da OM perante o uso regular e alternativo da MTC.

Resumindo : o governo reconhece a eficácia e segurança da MTC ao regulamentar a pratica e dando-lhe grau de licenciatura. A OM, que reivindica-se defensora dos interesses da saude publica, pensa isso inaceitável por ser uma pratica que não fez as suas provas cientificamente. Os praticantes e defensores da MTC, privados que querem ter acesso ao serviço publico, aclamam o governo.

Para os praticantes e defensores da MTC, o facto de 2 milhões de portugueses recorreram à MTC é por si um sinal de eficácia. Mas também por ser uma pratica exercida há mais de 5000 anos é eficaz. Se for mesmo verdade, é então de facto necessário haver regulamentação para garantir a segurança desses portugueses. Para os mais conspiracionistas, que podemos ler em vários comentários, a OM só quer dinheiro e poder, daí não quererem “concorrentes” e rejeitaram a MTC. Mas será que a MTC não é um negocio ?

A verdade é que estamos num mundo de ciências. Se quiserem voltar ao mundo como era antes do século XX, um mundo mais tradicional, é só combinar, eu pessoalmente não me importo. Sem ciências não estariam à ler este artigo, não haveria nem computadores, nem internet, nem a medicina teria evoluído. Metade da nossa família teria morrido de uma doença infecciosa e muitos de vos provavelmente nunca teria chegado a idade que tem hoje. Não podemos então por a ciências, no mundo atual, claro imperfeito mas um paraíso comparado aos séculos anteriores, e com todo o seu conforto, de parte.

Um dos problemas que me deparei com as terapêuticas não convencionais — nas quais se encontram a MTC, mas também a naturopatia, homeopatia, osteopatia, etc — é que olham para a ciência da forma que lhes convém. É tão comum ler da parte deles coisas como : “um estudo diz que…”, “um médico revela que…”, para defenderam uma ideia que têm. Mas no caso da MTC, o que diz mesmo a ciência ? É de facto uma medicina ou só uma terapia de bem estar ?

Se formos a Cochrane Library, uma organização sem fins lucrativos independente, podemos encontrar revisões sistemáticas de ensaios clínicos randomizados. Explicado brevemente consiste em reunir vários estudos com o mesmo objetivo e de retirar uma conclusão geral. A nível de provas cientificas é o que se faz de melhor.

Ao pesquisar “acupuncture” (a acupuntura é na minha opinião a principal terapia que torna a MTC única) eis o que se pode encontrar :

  • Na fibromialgia há evidencia moderada que a acupuntura reduz a dor quando comparado à nenhum tratamento ou a placebo (acupuntura a fazer de conta). Acupuntura manual (AM) não melhora a dor mas a eletroacupuntura (EA) é provavelmente melhor.
  • No tratamento da dor em pacientes com cancro não há evidencias suficientes para julgar a sua eficácia.
  • Em caso de osteoartrite articular periférica os benefícios são devidos as expetativas dos pacientes ou do efeito placebo.
  • No tratamento do síndrome do intestino irritável a acupuntura não se mostra mais benéfica do que o placebo.
  • Em casos de entorses agudos do tornozelo não existem evidencias que suportam a sua eficácia e segurança.
  • No caso das enxaquecas a acupuntura mostra reduzir as suas frequências e ser eficiente no tratamento de dores de cabeça apesar de mais ensaios clínicos serem necessários.
  • Em caso de doença renal aguda também não há evidencias de efeitos positivos.
  • Não reduz o numero de cesarianas quando feito no trabalho de parto.
  • Não há evidencias de eficácia em caso de afrontamento.
  • Não há evidencias suficientes para ser recomendado nem em pacientes com depressão, nem em transtornos do espectro autista, nem em caso de dor neuropática, nem em caso de dismenorréia, nem na reprodução assistida, nem no síndrome do ovário poliquístico, nem na epilepsia, etc.

E ao pesquisar “chinese herbal medicines” (fitoterapia - tratamento pelas plantas) :

  • Os benefícios são incertos em caso de dismenorréia, de hipertrigliceridemia, de cancro esofágico, de dor no pescoço crônico devido a doença degenerativa do disco cervical, de fígado gordo, de dor de garganta, de síndrome do intestino irritável, de hipertireoidismo ou ainda se melhora ou não a densidade mineral óssea.
  • Em casos de síndrome respiratória aguda sabe-se que combinado a medicina convencional não reduz a mortalidade mas é possível que melhora os sintomas, a qualidade de vida, mas as evidencias são poucas pela fraca qualidade dos estudos.
  • Não se conhece nem a eficácia nem a segurança em casos de abortos recorrentes inexplicados pela falta de estudos de qualidade. O mesmo acontece em caso de tratamento de infecções cutâneas e de tecidos moles, de hipercolesterolemia, de diabete tipo 2, de obstrução do intestino delgado adesiva, etc.
  • Não há evidencias que suportam a eficácia e a segurança em caso de neuropatia periférica diabética, de pré-eclâmpsia, de nódulos da tiróide benignos, de gravidez ectópica, etc.

Uma das batalhas da OM é de não chamar a MTC de medicina mas de terapêutica. Quando se vêm as evidencias cientificas atuais é dificilmente compreensível o que a MTC têm de medicina. Ou não há eficácia da terapia, ou não se sabe se há, e quando há mesmo não se sabe se é um efeito real e terapêutico ou efeito placebo (a pessoa pensa que funciona então funciona). Vários estudos mostram que por as agulhas no sítio certo — segundo a teoria da acupuntura tradicional — ou “à balda” resulta no mesmo ! Não há razões para afirmar que a acupuntura, e então de certa forma a MTC, ultrapasse o efeito placebo. Esse efeito placebo é positivo, é de ter em conta, e pode ser uma ferramenta útil. Mas temos para isso de chamar as coisas pelo seu nome.

Este jogo da batata quente é mais importante do que parece. Os praticantes da MTC não querem perder o negocio deles, é perfeitamente compreensível. Mas o que eles praticam é infelizmente enganoso. Se existissem provas concretas da eficácia dessas terapias a OM não estaria contra, nem teria como o fazer. Quando a Organização Mundial da Saúde fala das medicinas tradicionais, fala das medicinas tradicionais que provaram as suas qualidades, segurança e eficácia; grave erro, isso não existe! E quanto ao seu amigo cujo tia foi salva da morte certa por uma terapia não convencional duvide disso.

Quem grita que os médicos e a sua ordem só querem dinheiro da industria farmacêutica esquece que a industria dos suplementos alimentares, forma pela qual as vitaminas, minerais, plantas, são vendidas no mercado, foi de 132 mil milhões de dollars em 2016 e estimado chegar a 220 mil milhões em 2022 ! Só em Portugal foram estimados em 2017 2 milhões de consumidores de suplementos (serão eles os mesmos que recorrem a MTC ?) ! Claro que a farmacêutica ganha mais, está estimado chegar aos 1000 mil milhões em 2022, ou seja 5 vezes mais, mas enquanto a industria farmacêutica engloba toda a população, a industria dos suplementos alimentares alcança por enquanto muito menos… O poder da industria dos suplementos alimentares não deve ser negligência pelos conspiracionistas ! Só o mercado das diferentes medicinas complementares e alternativas esta estimado a 196 mil milhões em 2025. Isto tudo para dizer, em todo ao lado há dinheiro envolvido, é a base da nossa sociedade. Resta a cada um de nós de escolher entre evidencias cientificas adquiridas por organismos independentes, e a boa palavra de alguns privados, pregadores dos tempos modernos.

Reconhecer a MTC — e quem diz MTC diz as outras terapêuticas não convencionais — é dar-lhe validade, validade que nunca foi provada. Validade que criaria dois grupos, sejam eles adversários ou não, de um lado quem é sério e pode fazer realmente alguma coisa para a sua saúde e do outro quem lhe vá fazer perder tempo. Medicina há só uma e só pode haver uma. Não por razões econômicas e de poder, mas por razões de segurança. Para poder confiar tem de haver união, não pode haver uns a dizer : eis as provas, enquanto outro, tão legitimo ao olhos da lei: acredite em mim. Uma coisa é enquadrar terapias do bem-estar pelo efeito placebo de forma consciente, pessoalmente não sou contra e há lugar no mercado para isso, outra coisa é dar crédito ao que não é cientifico, lhes deixar dizer tudo e mais alguma coisa, e lhes deixar dar fé a pessoas desesperadas.

Hoje, as principais criticas feitas aos médicos não são culpa deles, mas sim do que gira a volta deles. A falta de tempo que têm para cada paciente, o tempo de espera nos hospitais e nos centros de saúde, etc, são problemas de dinheiro e não de más praticas. Entrou no inconsciente coletivo que são culpados de todos os males com sede de dinheiro — a consulta do terapeuta não convencional é mais barata? E contou com os suplementos todos que ele lhe recomendou? — Não precisamos de mais terapeutas que nos prometam milagres mas sim de mais médicos formados aos olhos das evidencias cientificas, de melhores condições para eles exerceram e para eles e só eles puderam ser holísticos e preventivos.


Infelizmente não sou pago nem pela OM, nem pela Big Farma, pior ainda, não ganho nadinha com isto. Fui estupido, pelo passado estudei naturopatia e as suas inépcias. Acreditei, era uma beata das mais ferozes. Felizmente, ainda a tempo, dei por mim no meio de cegos a apalparem um elefante e a gritaram a genialidade, e, desde então, recuso-me a cair no mesmo erro e espero poder acordar alguém, nem que sejas tu. Nunca se esqueça que a ciência deve ser das poucas que quando diz a verdade não mente,

E. Amaral.