Inicialmente publicado no Medium: https://medium.com/@etiennearl/cetico-acupuntura-e98c0d65b1c7 e em complemento do artigo anterior : MTC/OM/Governo : Jogo da batata quente.

Depois do meu artigo MTC/OM/Governo : Jogo da batata quente fizeram-me a critica de usar a Cochrane como fonte e que isso é uma “falácia tipica dos religiosamente cépticos”. Mas finalmente, onde está o mal na Cochrane ? E ser cético é assim tão mau ?! Este artigo vem complementar o artigo anterior, e questionar se de facto é boa ideia ou não o governo validar a MTC dando-lhe grau de licenciatura.

Por ter sido já várias vezes enganado, como qualquer um de nós, em coisas lindas de se acreditar mas que acabaram por ser mentiras, optei pelo ceticismo. Isso é, optei por duvidar da informação que me está a ser transmitida, optei por trabalhar o meu espirito critico. Da mesma forma que me questiono se devo comprar o pacote de arroz mais carro ou o mais barato, questiono-me sobre o que leio na internet, e questiono-me sobre a validade das terapêuticas não convencionais (TNCs) — naturopatia, medicina tradicional chinesa, homeopatia, etc — depois de ter acreditado nelas ingenuamente.

Afiar o seu espirito critico deveria ser obrigatório sobre tudo no mundo atual onde as falsas informações e desinformações são tão presentes no nosso quotidiano. Infelizmente nem tudo o que lê no Facebook é verdade, eu sei, é surpreendente. Pior ainda, pelas informações serem partilhadas por familiares, amigos ou conhecidos nossos, temos ainda mais tendencia em acreditar. Sabe-se que ler uma vez o titulo de uma noticia falsa é suficiente para aumentar a nossa percepção da sua precisão(1), e claro, a repetição aumenta a ilusão de ser verdade(2). Também se sabe que, se tivermos uma razão de estar céticos sobre a falsa informação, a nossa percepção da sua precisão ira diminuir(3). É por isso fundamental estarmos alertas e ter um pensamento analítico, tanto para as nossas futuras leituras como para as crenças que já possamos ter.

Saber pôr-se em questão e aceitar os nossos erros é prova de humildade não acha ? E saber dizer “não sei” ? Isso tudo requer, maturidade, uma certa grandeza, não é dado naturalmente, mas qualquer um o pode fazer. Portanto, no campo das TNCs, isso nunca acontece, pelo menos nunca o vi fazer. Quando não sabem respondem de forma imprecisa, quando lhes é dito que estão em erro arranjam mil e umas desculpas. É normal isso acontecer, as nossas crenças são seguranças. Infelizmente, sabe-se que quem tem tendencia em acreditar em bullshit — não é uma mentira deliberada, o bullshit não têm intuito de manipular e subverter a verdade, mas sim de impressionar e convencer sem se preocupar com a verdade(4)— reflete menos, tem menor capacidade cognitiva, é mais propenso a confusões ontológicas (erros que envolvem diferentes propriedades como entre animado e inanimado, material e imaterial) e ideologias conspiratórias, a manter crenças religiosas e paranormais, e mais propensos a apoiar a medicina complementar e alternativa(5). Nesse estudo(5), foi percebido que muitos dos participantes não conseguiam diferenciar bullshit escrito pelo Deepak Chopra, autor de mais de vinte bestsellers da New York Times sobre espiritualidade e “medicina”, de frases geradas de forma aleatória(6)! O uso da ambiguidade e vaguidade para mascarar a falta de significação e de conhecimento é extremamente comum, tal como nas TNCs, e as pessoas acreditam, e mais lêem, mais têm certeza de ser verdade. Pior, do bullshit passam a contar mentiras deliberadas, e nunca assumem não saber ou de se terem enganado, e protegem-se uns ou outros. Ouve-se tanto falar em medicamentos retirados da venda, em conhecimento que já não está valido, é porque essas pessoas conseguem assumir o erro. Nas TNCs nunca ouvira falar que algo foi mal feito. E isso, torna-se tão trágico, que mesmo ao mostrar provas solidas elas não deixam de acreditar.

A Cochrane é uma organização sem fins lucrativos independente, composta por 37000 pessoas oriundas de 130 países, livre de patrocínios comerciais e de outros conflitos de interesse(7). Qualquer pessoa pode-se juntar a Cochrane e contribuir as diferentes tarefas realizadas(8). Uma dessas tarefas é realizar revisões sistemáticas, ou seja, reunir diferentes ensaios clínicos com o mesmo objetivo e retirar uma conclusão geral da soma deles. Como é obvio, nem todos esses ensaios clínicos se valem portanto só os que têm as características certas é que são incluídos. Quais os estudos incluídos, quais os excluídos, e a razão dessas escolhas estão claramente indicadas. Só não vê quem quer. É nesta parte que quem refuta as conclusões obtidas se ofusca, grita à manipulação, na opinião deles todos os estudos onde a acupuntura (por exemplo) deu resultados positivos foram excluídos previamente da revisão. Isso não faz sentido ! O que acho mais hipócrita ainda, é que quando as conclusões lhes são favoráveis, como é o caso do Hipericão em casos de depressão(9), já não dizem que a revisão foi manipulada e servem-se dela como argumento !

Uma revisão sistemática publicada na Evidence-Based Complementary and Alternative Medicine mostra bem os problemas com os estudos sobre a medicina tradicional chinesa(10). De 1145 estudos registados na ClinicalTrials.gov, dos quais 54.4% eram de acupuntura e 35.8% de fitoterapia chinesa, 55.7% dos ensaios clínicos eram realizados com menos de 100 participantes, e apesar de 86.5% serem randomizados e 82.2% duplo-cegos, só 8.7% dos estudos concluídos apresentaram os resultados. Ou seja, é muito provável que imensos estudos com resultados negativos nunca venham a ser publicados, ficamos então só “com os melhores” para debater e serem incluindo nas revisões sistemáticas. Se houvesse “montes” de estudos de qualidade com resultados positiveis irrefutáveis a Cochrane não teria outra escolha do que concluir de acordo com esses estudos; e por sua vez, a Ordem dos médicos não poderia alegar ao governo de estar em erro.

Voltando ao quanto é importante usar o seu espirito critico : Porque a MTC tem 5000 anos de história e continua a ser praticada nos dias de hoje é sinal da sua eficácia certo ? Mas já pensou em confirmar tal coisa ? Na MTC, e isso desde a sua existencia, a parte mais importante sempre foi a administração de remédios (a partir de plantas ou animais). A acupuntura foi sempre menos utilizada, tanto pelo facto de não se saber fazer agulhas tão finas como hoje em dia e serem então dolorosas, tanto pelo risco de inflamação, de purulência e de infeção, mas também pelo perigo que corria quem usava as agulhas. Pelos “médicos” na China antiga serem responsáveis da morte do paciente (o que não era uma brincadeira quando se tratava do imperador), e ao contrario da administração das plantas onde a responsabilidade podia ser partilhada com outros médicos, só uma pessoa, uma mão, é que insere a agulha, e o risco era demasiado grande para ser corrido. Dos 400 imperadores chineses, só “meia dúzia” deles é que foram tratados com acupuntura. E, mesmo quando a acupuntura era utilizada, era sempre junto à toma de remédios, caso não funciona-se, para ter uma desculpa que as ervas eram de baixa qualidade ou que a decocção foi mal preparada.
No Tratado das Doenças Causadas pelo Ataque do Frio (que me recordo ser falado em aulas de MTC), dos seus 398 artigos, só 9 recomendam acupuntura normal e 3 com agulhas aquecidas, 5 a moxabustão, e uns 10 avisam sobre os efeitos negativos tanto das agulhas aquecidas como da moxabustão.
Em 1757, Xu Dachun, lamentou a acupuntura de ser uma tradição perdida. Se isso significa que já não era muito utilizada nessa altura, não significa que antigamente o era. Já no Huangdi Neijing (Clássico de Medicina do Imperador Amarelo), por volta de -200, é dito o mesmo.
Em 1822, o imperador Daoguang, baniu a acupuntura e moxabustão da Academia Médica Imperial (fundada em 624). Não é algo que fez só porque lhe apeteceu depois de tomar o pequeno almoço, mas sim junto dos seus conselheiros, dos médicos e professores dessa mesma academia. Provavelmente depois de décadas, se não séculos, dessa ideia já estar presente, foi ele que teve a coragem de o fazer.
Mas então, porque a acupuntura está hoje tanto na moda ? O presidente Mao Zedong (1893–1976) — apesar de ser seguido por um médico convencional, Li Zhisui, e nunca ter tomado nada da medicina Chinesa e nem se quer acreditar na MTC — optou pelo renascimento da MTC para lutar contra a escassez de pessoas com formação médica na China pós-guerra e para aumentar o nacionalismo chines. Em 1954 ordenou os praticantes de medicina ocidental de estudar medicina chinesa, apoiando-se no livro de Zhu Lian, “Nova acupuntura”, médica com formação ocidental, publicado em 1951. Mas esta nova acupuntura já nada tem de tradicional: os praticantes de MTC devam em primeiro aprender a anatomia e fisiologia cientifica, e só depois a teoria e terminologia da MTC; o diagnostico, tratamento e documentação é feito de acordo com o pensamento moderno e a classificação das doenças; os casos de emergencia e doenças graves deixados aos colegas treinados cientificamente; a acupuntura é deixado a casos funcionais, tratamento da dor, neurologia e paralisia; a esterilização das agulhas e da pele é obrigatória; os pontos de acupuntura das extremidades são utilizados mais frequentemente; a auriculoterapia, o uso de eletricidade e a acupuntura analgésica foram integrados à pratica; e os tratamentos são feitos entre 4 a 20 sessões. No ocidente, a acupuntura ficou conhecida quando o jornalista James Reston contou uma única anedota pessoal na New York Times em 1971.(11) Apesar que ser um eminente jornalista politico, Reston não tinha nenhum passado cientifico, nem intensão de voltar ao que disse. A partir de aí historias começaram à circular. Em 1972 ouvia-se falar de cirurgias cardíacas com a acupuntura como único analgésico. Em 2006 as mesmas alegações foram repetidas na BBC, e claro descobriu-se ser mentira, o paciente tinha tomado 3 potentes sedativos (midazolam, droperidol e fentanil) e mais um grande volume de anestésico local injetado no peito.(12) As agulhas de acupuntura eram meramente decorativas. Ver isso na televisão, ou ouvir falar disso, chega para quem não é cético de acreditar e ganhar mais conceitos falsos.

Depois de ler isto tudo, a primeira coisa que deveria perguntar-se é : de onde é que ele está a tirar isto tudo ?! E, caso seja honesto, e o que escrevo não seja bullshit dou-lhe a fonte : Lehmann, H. (2013). Acupuncture in ancient China: how important was it really?. Journal of integrative medicine, 11(1), 45–53. E por ser simpático também lhe dou o link : https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/23464646.

Antes de concluir, vou abordar brevemente o que se sabe realmente sobre a acupuntura:

  • Muitos dos estudos não são fiáveis. Sabemos que há países (China, Russia) dos quais nunca há estudos com resultados negativos, provavelmente devido à enviesamentos, e isso dificulta a realização de revisões sistemáticas(13). Um estudo pelo Centre for Evidence-Based Chinese Medicine, da Beijing University of Chinese Medicine, mostrou evidências fortes de viés de publicação, manipulação, conclusões positivas baseadas em dados que não apresentaram diferença significativa e outros problemas, em ensaios clínicos randomizados publicados em revistas chinesas.(14)
  • É muito provavelmente não mais do que placebo. Apesar dos resultados da Cochrane serem legítimos como visto anteriormente, vou ser mais uma vez simpático e usar outros estudos. Grandes ensaios clínicos multicêntricos realizados em Alemanha(15) e Estados Unidos(16), revelam de forma consistente que não há diferença entre a acupuntura e a acupuntura placebo em diminuir várias dores crónicas (enxaqueca, dor lombar, osteoartrite do joelho).
  • Como visto anteriormente, muitos dos estudos — com resultados negativos? — não são publicados.

Se a MTC, por tradição, consiste sobre tudo na administração de remédios, em grande parte derivados de plantas, e que a acupuntura não se mostra eficaz além do efeito placebo, nem se quer era muito praticada de forma tradicional, porque é que existe tanta resistência ? Razões politicas ? Econômicas ? Não tenho a resposta. Mas não seria preferível integrar o que a MTC têm de bom a oferecer à medicina, ou seja algumas plantas, e mais precisamente, alguns compostos das plantas ? Como por exemplo a descoberta de artemisinina que valeu à Tu Youyou o Prémio Nobel de medicina (apesar de ser todo o trabalho cientifico de farmacologia que está por trás a verdadeira vitoria) ? Não é preferível unirmos-nos e lutar pela saúde de todos, em vez deixar curandeiros defenderem o seu pedaço de bolo ? O desespero de querer arranjar soluções aos nossos problemas de saúde não deve ser desculpa para cair no obscurantismo. Os nossos erros de carreira podem se tornar num renascimento, numa construção pessoal e social. Nunca é tarde para mudar o nosso mundo.


Infelizmente não sou pago nem pela OM, nem pela Big Pharma, pior ainda, não ganho nadinha com isto. Fui estupido, pelo passado estudei naturopatia e as suas inépcias. Acreditei, era uma beata das mais ferozes. Felizmente, ainda a tempo, dei por mim no meio de cegos a apalparem um elefante e a gritaram a genialidade, e, desde então, recuso-me a cair no mesmo erro e espero poder acordar alguém, nem que sejas tu. Nunca se esqueça que a ciência deve ser das poucas que quando diz a verdade não mente,

E. Amaral.


(1) https://papers.ssrn.com/sol3/papers.cfm?abstract_id=2958246
(2) http://journals.sagepub.com/doi/abs/10.1177/1088868309352251
(3) https://papers.ssrn.com/sol3/papers.cfm?abstract_id=3035384
(4) https://en.wikipedia.org/wiki/On_Bullshit
(5) http://journal.sjdm.org/15/15923a/jdm15923a.pdf
(6) http://www.wisdomofchopra.com
(7) http://www.cochrane.org/about-us
(8) http://join.cochrane.org
(9)http://onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1002/14651858.CD000448.pub3/full
(10) https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC5613643/
(11) http://www.nytimes.com/1971/07/26/archives/now-about-my-operation-in-peking-now-let-me-tell-you-about-my.html
(12) http://www.telegraph.co.uk/news/science/science-news/3344833/Did-we-really-witness-the-amazing-power-of-acupuncture.html
(13) http://www.dcscience.net/Vickers_1998_Controlled-Clinical-Trials.pdf
(14)http://online.liebertpub.com/doi/pdfplus/10.1089/acm.2014.5346.abstract
(15) https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/19433697
(16) https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/19174438